PALAVRA DE CADA DIA – TRIGÉSIMO DOMINGO DO TEMPO COMUM – Meu Deus, tem piedade de mim, que sou pecador!

“Meu Deus, tem piedade de mim, que sou pecador!”

Lucas 18, 9-14

A liturgia deste domingo ensina-nos que Deus tem um “fraco” pelos humildes e pelos pobres, pelos marginalizados; e que são estes, no seu despojamento, na sua humildade, na sua finitude (e até no seu pecado), que estão mais perto da salvação, pois são os mais disponíveis para acolher o dom de Deus.

O Evangelho define a atitude correta que o crente deve assumir diante de Deus. Recusa a atitude dos orgulhosos e autossuficientes, convencidos de que a salvação é o resultado natural dos seus méritos; e propõe a atitude humilde de um pecador, que se apresenta diante de Deus de mãos vazias, mas disposto a acolher o dom de Deus. É essa atitude de “pobre” que Lucas propõe aos crentes do seu tempo e de todos os tempos.
O tema da oração continua no evangelho de hoje: Jesus mostra que não basta somente rezar, pois muito depende das nossas atitudes enquanto rezamos. Por isso, Ele nos conta mais uma parábola que só Lucas relata – a parábola do “Fariseu e o Publicano”.

Para entender bem esta passagem, é imprescindível que nós entendamos o significado dos termos “fariseu” e “publicano”. Os fariseus formavam um partido religioso-político, nascido dos “fiéis observadores da Lei”, ou “Hasidim”, dos tempos da revolução dos Macabeus. Eles romperam com as ambições políticas dos Hasmoneus (dinastia dos Macabeus) e formaram o seu grupo dos “separados”, que parece ser o sentido da palavra “fariseu”. Eles primaram pela observância rigorosa da Lei, embora entre eles existissem diversas escolas de interpretação. Em nossa linguagem, a palavra “fariseu” normalmente significa “hipócrita” – uma injustiça aos fariseus, que eram, na maioria absoluta, gente sincera de uma ascese rigorosa em busca da fidelidade à Lei de Deus.

Provavelmente estamos muito influenciados pelo Capítulo 23 de Mateus, uma das páginas mais virulentas do Novo Testamento, que reflete mais a situação de perseguição dos cristãos pelos fariseus pelo ano 85, do que a situação no tempo de Jesus. A grande crítica de Jesus contra este grupo não era por motivos de moral, mas porque, confiando na observação externa da Lei como garantia de Salvação, tiraram a gratuidade de Deus, que nos salva “de graça”.
Enquanto os fariseus gozavam de enorme prestígio diante do povo no tempo de Jesus, do outro lado um dos grupos mais odiados e desprezados era o dos “cobradores de impostos”, ou “publicanos” (assim chamados porque cobravam um imposto denominado publicum, um tipo de ICMS!). Esse ódio não nasceu simplesmente da resistência natural do povo contra a cobrança de impostos e taxas, mas do fato que eles trabalhavam pelo poder opressor – os romanos, através dos seus lacaios, os Herodianos. Os publicanos estavam entre os mais “impuros”.

Como aconteceu no início do capítulo 15, aqui também Lucas destaca o motivo da parábola: “Para alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros, Jesus contou esta parábola” (v. 9). É interessante verificar os dois tipos de oração. O fariseu elenca todas as suas observâncias, tudo que ele faz, está conforme manda a Lei. Ele não mente; ele faz isso mesmo. Só que ele confia absolutamente no poder da sua prática para garantir a Salvação. Assim, dispensa a graça de Deus, pois se a Lei é capaz de salvar, não precisamos da graça! Ainda se dá ao luxo de desprezar os que não vivem como ele – ou porque não queriam, ou porque não conseguiam: “Ó Deus, eu te agradeço, porque não sou como os outros homens, que são ladrões, desonestos, adúlteros, nem como esse cobrador de impostos.” (v. 11)

O publicano também não mente quando reza! Longe do altar, nem se atrevia a levantar os olhos para o céu, mas batia no peito em sinal de arrependimento e dizia: “Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador” (v. 13). E era a verdade mesmo: ele era vigarista, ladrão, opressor do seu povo, traidor da sua raça; mas, ele tinha consciência disso, e não só disso, mas do fato de que por si mesmo ele era incapaz de mudar a sua situação moral. A sua única esperança dele era a de jogar-se diante da misericórdia de Deus. Para o espanto dos seus ouvintes, Jesus afirma que o desprezado publicano voltou para casa “justificado” (tornado justo) por Deus, e não o outro. Pois, é Deus que nos torna justos por pura gratuidade, e não em recompensa por termos observado as minúcias de uma Lei.

Como entrou de cheio o farisaísmo nas nossas tradições de espiritualidade! Como as nossas pregações reduzem a fé e o seguimento de Jesus a uma observância externa de uma lista de Leis! Como reduzimos Deus a um mero “banqueiro” que no fim da vida faz as contas e nos dá o que nós “merecemos”, de acordo com uma teologia de retribuição! Quem tem conta em haver com Ele, ganhará o céu; e quem está em dívida irá para o inferno! Onde fica a graça de Deus e a cruz de Cristo? Paulo mudou de vida quando descobriu que a Lei, por tão importante que fosse como “pedagogo”, não era capaz de salvar, mas que é Deus que nos salva, sem mérito algum nosso, através de Jesus Cristo! Com essa descoberta, se libertou! Defendia esse seu “evangelho” (Gl 1) a ferro e fogo!

O texto de hoje nos convida para que examinemos até que ponto deixamos o farisaísmo entrar em nossa vida. Até que ponto confiamos em nós mesmos como agentes da nossa salvação; até que ponto nos damos o direito de julgar os outros, conforme os nossos critérios. Uma advertência saudável e oportuna que alerta contra uma mentalidade “elitista” e “excludente”, que pode insinuar-se na nossa espiritualidade, como fez na mentalidade dos fariseus, sem que tomemos consciência disso!

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