DEUS TÃO PRÓXIMO

“Nos carvalhos de Mamrê”… (Gn 18, 1) o Senhor apareceu a Abraão. O Senhor reserva para si a iniciativa de sua passagem. Não mais mediante uma visão nem o torpor sonolento no poente, nem qualquer estrondosa declaração, mas sim na claridade da atividade cotidiana. Ele se apresenta por intermédio de um estrangeiro. São três visitantes; o livro do Gênsesis fala ora dos três, ora do Senhor, estabelecendo uma feliz confusão. Deus vai até ele como essas três pessoas inesperadas.

O ancião “estava sentado à entrada da tenda” (Gn 18, 1). A experiência religiosa vai apanhá-lo no ambiente em que vive. Encontrar Deus é algo concreto, que se pode sentir, a maioria das vezes longe dos êxtases fulgurantes. O meio-dia é o tempo dos olhos abertos, isto é, da plena consciência. Deus chega na hora em que Abraão está sentado e disponível.

“Ele ergueu os olhos e percebeu três homens junto dele” (Gn 18, 2). Deus assume os traços de um peregrino. O estrangeiro chega com simplicidade, esperando ser reconhecido como tal. Ele está ali como quem tem tudo a receber. Nossa fé logo tropeça na questão da presença de Deus na figura do estrangeiro.

O patriarca com o pedido insistente, além da fórmula de cortesia, reconhece que o outro pode ser fonte de benefício. Como se a presença do Estrangeiro fosse semelhante a um dom especial. Os gestos da hospitalidade são simples. Um pouco d’água para lavar os pés, a sombra de uma árvore, um pedaço de pão, um pouso para refazer as forças. O gesto de Abraão é voltado para os visitantes e nos faz pensar. Acolher é valorizar o outro, é valorizar Deus. Os gestos de hospitalidade têm o dom de revelar quem somos nós e quem é ele. No texto do Gênesis, Deus ou o Estrangeiro aceita o convite de ficar. Assim, o encontro se aprofunda. Deus é comensal; ele se apresenta e se deixa também encontrar à mesa. Abraão descobre a sua presença não mais apenas no culto dos altares montados ao longo da estrada, mas também no convívio de uma refeição.

Sob o carvalho de Mamrê advinha-se a mesa do Reino. Pessoal e comunitária, ela se inicia com uma promessa endossada pela fé cotidiana. Ela está aberta aos gestos familiares e inusitados, e comunhão e conversão são as iguarias. Deus passa por ela e se estabelece.